Sem razão
própria
sobre viver por empréstimo quando as razões próprias se foram
I — o vazio que não se explica
sobre viver por empréstimo quando as razões próprias se foram
I — o vazio que não se explica
pensamentos que cabem aqui e mais em lado nenhum
I — o peso dos dias
sobre o peso que dobra e o contrapeso que sustenta
I — dois lados, uma vida
sobre fazer coisas quando as palavras não chegam
I — as mãos pensam primeiro
sobre frases que ficam e perguntas que não têm resposta fácil
I — a frase que ficou
sobre um dia, uma frase, e o caminho que é para a frente
I — oito horas que desapareceram
sobre tentar falar e sobre as mãos que fecham portas que não são delas
I — a decisão
sobre sentir demasiado numa direção que o mundo não deixava seguir
I — o que não coube
sobre quatro verdades que custam a aprender quando o coração não leu o contrato
I — chefe não é amigo
sobre a hora que o corpo não escolheu e a cabeça que não desligou
I — antes do alarme
sobre um dia difícil, três alfinetadas, e a pergunta que fica depois de tudo
I — a fuga que não chegou a ser
sobre a reunião onde a alma foi vaguear, a equipa que não existe, e o custo de se manter de pé
I — a alma que foi vaguear
sobre anos a construir em silêncio e a curiosidade que ninguém conseguiu apagar
I — o que se aprende sem ninguém a ver
sobre navegar por uma luz que está a diminuir e o oceano que fica maior
I — o mapa que já não serve
sobre o cérebro que não processa e o esgotamento que parece outra coisa
I — o desenho
mas esse número tem sentimentos
I — o que todos sabemos
e a clareza doeu mais do que a dúvida
I — a intenção de um dia
quando as palavras falharam, a estrada falou
I — o puzzle sem solução
sobre o peso que se acumula quando ninguém pergunta nada
I — sem despertador
sobre perder alguém que não foi embora
I — o bom dia
sobre as perguntas que nunca fazemos em voz alta
I — a pergunta que não saiu
sobre o cocó, o ranheta e o facada
I — a evolução que não chegou
sobre quem nunca foi a lado nenhum
I — com que se pode contar
sobre estar perdido e continuar a andar na mesma
I — a dor que não avisa
sobre tentar falar com quem fechou as portas e depois te culpa por não ter entrado
I — quando ainda era sol
sobre ter as palavras certas tarde demais
I — por escolha
sobre as que ficam na cabeça mesmo depois de tudo
I — a mesma pessoa
sobre o momento em que a dúvida desaparece
I — cinco dias
sobre iluminar quem não sabe que ilumina — e não ser iluminado de volta
I — o antes
sobre dar tudo a quem se contenta com nada
I — orbitar
sobre quando tudo muda sem aviso e sem explicação
I — o que se conhecia
sobre tentar esquecer e não conseguir que o corpo colabore
I — só queria ouvir a voz
sobre voltar quando se preferia não ter de voltar
I — o dia que chegou
sobre querer a voz, a presença, e a verdade — tudo ao mesmo tempo
I — o fraco
sobre voltar com esperança e encontrar o mesmo vazio
I — o regresso
sobre uma admiração, uma frase, e uma porta que fechou antes de abrir
I — a admiração
sobre o que se carrega quando a fé e o inferno vivem no mesmo lugar
I — o ecossistema
sobre a frase que mudou tudo e o quente que não voltou
I — o antes
sobre um dia com a cabeça a rebentar e duas vezes em que ela foi outra pessoa
I — a cabeça
sobre querer bem a quem não tem nada para dar e não conseguir explicar porquê
I — a pergunta
sobre uma esperança pequena que morreu enquanto estava de pé a ouvir
I — a marca
sobre o peso de não saber quando a resposta era simples
I — as perguntas
sobre trabalhar em silêncio quando já não se espera ser visto
I — o segundo dia
sobre voltar de férias e descobrir que ninguém deu por isso
I — antes de partir